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Os problemas que afetam o sindicalismo contemporâneo e o surgimento da figura do novo trabalhador coletivo

Quem constrói o novo amanhecer somos nós. Se não assumirmos essa tarefa, continuaremos no escuro”

O cientista social, Emílio Gennari, iniciou sua palestra na Oficina Sindical da DS BH, realizada no último dia 9, levando a categoria de Auditores-Fiscais a refletir sobre o conceito de sindicato como entidade que exerce a função de SIM, ou seja, não se trata de uma sala de um prédio, um endereço, um telefone, um sitio na internet ou um conjunto de lideranças esforçadas. Sindicato é um conjunto de servidores que se organizam para defender seus interesses, os seus direitos e que depende da participação de todos para consecução do seu fim.

 

 

O sindicato hoje está em crise”, afirmou o palestrante quando explicou que nas últimas duas décadas, principalmente na iniciativa privada, foram retirados dos locais de trabalho as pessoas que estavam envolvidas com o sindicato e que promoviam discussões e debates políticos nos ambientes institucionais. A classe trabalhadora passou a não mais discutir política, saúde e educação e, com isso, ficou muito mais fácil moldá-la para que fosse possível limitar as pautas reivindicatórias e o paulatino esvaziamento dos sindicatos.

A partir da década de 1990, houve a tentativa de fazer com que o trabalhador fosse cada vez mais “parceiro” dos empresários. A luta por direitos começa então a se perder em nome de uma parceria que, apesar das aparências, sempre atendia às exigências da empresa. Tal medida, segundo Gennari, também contribuiu consideravelmente para o enfraquecimento do sindicato e reduziu a ação sindical ao âmbito econômico corporativo: nada de discutir políticas públicas que contrariem a visão institucional, ou seja, a luta passou a se resumir a salário, jornada e condições de trabalho.

O “novo trabalhador” passou a ser domesticado para agir conforme as exigências do capital, pois lhes eram dadas diversas “conquistas” ao agirem em parceria com o empregador e, coletivamente, o sindicalismo também entrou nessa onda. As próprias empresas passaram a substituir os sindicatos nas negociações e a identidade de categoria que luta em defesa dos direitos começou a se perder em nome de uma parceria que se submete às crescentes demandas das empresas.

Esse novo trabalhador pensa individualmente e não consegue dialogar com seus pares, ele fala outra linguagem. Como consequência, o afastamento e o isolamento, que dificultam os processos de luta.

Os trabalhadores foram transformados, de acordo com Gennari, em unidades de consumo, o chamado “ter para ser” como passaporte para a visibilidade. O trabalhador não precisa mais estar com os demais e lutar em conjunto, ele passa a buscar espaço para sua própria afirmação, independentemente do coletivo. Um trabalhador preocupado apenas com seus conflitos individuais que não percebe que os seus problemas também podem ser sentidos pelos seus semelhantes.

“O novo trabalhador perdeu a capacidade de ver a sociedade organizada de outro jeito e nem acredita que a sua intervenção possa fazer a diferença no local de trabalho. O perfil de trabalhador cada vez mais focado na sua empregabilidade, em correr atrás de condições que garantam o seu sucesso pessoal no trabalho. A sua realização profissional depende exclusivamente dele, individualmente”, destacou Gennari.

Em relação ao sindicalismo de servidores públicos, Gennari explicou que o mesmo está sozinho e “com as pernas bambas”: levado ao isolamento e realizando lutas que a sociedade não compreende. A sociedade desconhece a legitimidade de suas lutas e condena aquilo que é público e aplaude o que é privado. “Vocês Auditores-Fiscais estão isolados sem a possibilidade de realizarem alianças, pois os demais setores da classe trabalhadora possuem uma leitura de realidade de maneira segmentada e não estão interessados em compartilhar lutas”, afirmou.

Por outro lado, o que também dificulta o movimento sindical atualmente é que, aqueles que exerciam posições de liderança hoje são os mesmos que negociam com os trabalhadores. Eles conhecem as falhas e os defeitos do movimento sindical, sabem quando o movimento tem condições de sobressair-se ou não. “Eles sabem como desmontar a máquina. Parte das lideranças não existe mais e quem existe está do outro lado da negociação é aquele que ontem lutava contigo” disse o palestrante.

Cumprimento de metas, crescente redução de condições de trabalho, aumento da carga e alto índice de ocorrência de assédio moral são alguns dos problemas que afetam o funcionalismo público atualmente, mas os trabalhadores não reagem. A defesa do posto é mais importante do que qualquer outra defesa, ou seja, as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras nas relações trabalhistas. O sindicalismo está como um general sem exército.

Sobre esses problemas Gennari orientou: “aprendam a dizer NÃO e reconstruam elementos para aproximar as pessoas e levá-las a pensar sobre a sua realidade de trabalho. É preciso desenvolver um pensamento de indignação sobre essa situação, pois o pensamento de indignação nasce da percepção da injustiça. Se não há injustiça, não há indignação”, ressaltou.

O sindicato precisa ter interesse nos problemas da coletividade e ajudar as pessoas a se envolverem e pensarem o caminho da luta. No entanto, cabe a cada trabalhador estar organizado e ter a consciência de que algo precisa ser feito junto, coletivamente. Não se deve simplesmente delegar para a liderança, buscando tão somente um culpado para um problema que é de todos.

Gennari aconselhou a categoria a se posicionar e definir seus reais objetivos, escolhendo o ponto mais fraco na força do seu inimigo, promovendo debates e diálogos constantes com a sua base, não se esquecendo de estimular aquele sentimento de indignação. “O novo trabalhador não aceita linguagem racional, tem que tocar o coração dele”, disse.

Para concluir sua exposição, o palestrante ainda orientou: construa dúvidas, perguntas, leve as pessoas a pensarem. Sei que o processo é difícil, mas não é impossível. Ajude as pessoas a construírem um sentimento de coletividade, de solidariedade umas para com as outras. Cultive espaços informais, quebrem o gelo nas relações. “O verdadeiro líder é um de nós, ele está do nosso lado, mas nós precisamos ajudá-lo no processo de condução do movimento sindical”.

“Minha visão em relação ao futuro do movimento sindical é bastante otimista. Acredito sim que o sindicalismo tem futuro e ele está na nossa capacidade de interpretar os acontecimentos, intervir, dialogar e mudar, para apontar novas construções e um futuro melhor para todos. Quem constrói o novo amanhecer somos nós. Se não assumirmos essa tarefa, continuaremos no escuro”, concluiu Gennari.

 

Sindicalistas questionam o movimento sindical na pós-modernidade

Os Auditores-Fiscais Álvaro Garcia Rabelo (diretor de Assuntos Parlamentares da DS BH), Suely Siqueira Campos (aposentada) e Olavo Porfírio (DS Rio de Janeiro) foram os preletores da palestra “Há espaço para o sindicalismo no serviço público brasileiro da pós-modernidade?” na Oficina Sindical da DS BH realizada em 10 de maio, quando discorreram sobre o papel do sindicato e o futuro do movimento sindical na atual conjuntura.

Álvaro Rabelo, decepcionado com o movimento sindical no Brasil, elaborou uma série de questionamentos que em resumo demonstram a sua indignação com o Sindicado Nacional dos Auditores-Fiscais, o qual comparou a um elefante: grande, burocrático, oneroso e voltado apenas para questões internas. “Nós atingimos o peleguismo em seu grau máximo”, desabafou.

O Auditor questionou o tratamento recebido pela categoria durante a campanha salarial, a ausência de resultados satisfatórios e o fato do subsídio dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil ser inferior aos salários dos fiscos municipal e estadual.

Para Álvaro Rabelo é necessário mudar a forma de comunicação do sindicato para “tocar” as pessoas. “As lideranças não se comunicam e mantém pouco contato com a base e, com isso, os sindicatos não provocam reações, não somos convidados a refletir. Nós temos que tocar as pessoas, mudar a forma de comunicar, mas temos que provocar, nem que seja raiva. A indiferença e o desligamento fogem do conceito de sindicato que aprendemos e que queremos”, concluiu.

Militante do movimento sindical nas décadas de 1970 e 1980, Suely Campos também não demonstrou otimismo com o movimento sindical. Ela que foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais e da União dos Trabalhadores do Ensino no Estado, e nessa época acredita ser de fundamental importância a existência do sindicato.

De acordo com Suely Campos, o poder reivindicatório nas décadas passadas era maior e os Auditores-Fiscais eram formadores de opinião, mas atualmente praticamente não fazem questionamentos.  “A classe média, no caso os Auditores-Fiscais, perdeu o seu espaço ao longo dos anos e deixou de ser formadora de opinião. Atualmente o governo e a mídia passaram a fazer este papel”, disse.

O Auditor-fiscal, Olavo Porfírio Cordeiro, falou sobre a solidariedade sindical, exemplificando sua experiência com o sindicalismo na Receita Federal do Brasil. Com uma visão mais otimista acerca do movimento sindical, Olavo Cordeiro relatou o nascimento das entidades sindicais: Unafisco Sindical e Fenafisp e as conquistas da categoria ao longo dos anos. Ele reconheceu a necessidade de reconstrução do sindicato, transformando-o numa entidade mais participativa, no qual a negociação não substitua a participação efetiva da categoria e dos dirigentes nas atividades.

“O sindicato está fragilizado, é preciso interagir com os pares e diferentes. Não basta manifestação das direções, precisamos trazer as pessoas para as atividades e cabe ao sindicato criar condições para que elas se manifestem. O sindicato precisa estar aberto à sociedade, manter a visão de cidadania e o pensamento de ação coletiva em substituição ao sucesso pessoal e o individualismo percebido nos últimos tempos”, afirmou.

 

Participantes da Oficina Sindical em BH também contribuem para o debate sobre o sindicalismo brasileiro na pós-modernidade

Adriano Corrêa – DS Espírito Santo

“Precisamos sair daqui com a tarefa de discutir um sindicalismo ativo, que discuta as políticas do Estado e não somente se enclausure em um corporativismo meramente salarial”.


Helder Gondim – DS Brasília

“Devemos realmente provocar as pessoas para que elas participem. A participação delas significa escutá-las mesmo quando nos desagrada e mesmo quando os interesses não estejam sintonizados com os nossos princípios ideológicos, enquanto dirigentes sindicais”.


Antônio Augusto Bianco – Sete Lagoas

“Proponho que essas oficinas sindicais sejam realizadas mensalmente na base. Que sejam disponibilizados materiais no site do sindicato e que os filiados também possam fazer indicação de livros e matérias de pesquisa, para que consigamos efetivamente provocar indignação nas pessoas para que elas participem das atividades sindicais.”


Ewerardo Lopes Tabatinga – Belo Horizonte

“Vamos construir um projeto em BH e levar para a categoria. Precisamos construir um debate e um discurso para mobilizarmos nossa categoria. Este é o caminho para resolvermos nossas questões internas.”


Olga Carvalho Hott - Belo Horizonte

“Deveríamos ter nesta oficina sindical um período para maturar as informações e termos mais oportunidade de dialogarmos para traçarmos um “rumo para nossa categoria. Tudo que foi dito aqui é muito difícil essa comunicação. As pessoas estão muito distantes. Traçar normas para vermos formas de aglutinar  as pessoas. Como a comunicação será feita. Com troca de informações.”


Marcelo Soriano – DS Curitiba

“Dezessete Delegacias Sindicais perceberam que os mecanismos de comunicação disponibilizados para a categoria não eram suficientes e decidiram, então, se organizar para colocar no ar um portal voltado para os Auditores-Fiscais. Acreditamos que este portal supre a deficiência, pois busca ser interativo, permitindo a manifestação de categoria e respostas às suas inquietações. Convido todos a participarem e colaborarem com a manutenção deste projeto. Comecemos a formar uma pauta de interesse da categoria. O endereço do portal é www.auditoresfiscais.org.br."


Luiz Sérgio Fonseca Soares – Belo Horizonte

“Precisamos estar atentos para caminharmos juntos, como categoria em defesa da RFB. Há muito que se fazer, mas temos a felicidade de termos na diretoria um constante diálogo democrático. Cada diretor com sua habilidade interagindo nos locais de trabalho e trazendo as demandas da categoria tem sido fundamental. Conseguimos realizar muita coisa dessa forma, mas quando organizamos um evento alguns imprevistos podem acontecer e nem sempre sai tudo como gostaríamos.”


Lúcia Helena Nahas – Belo Horizonte

“O sindicato é o espaço que nós temos para atuar politicamente. Somos um sindicato de estado e precisamos definir qual o nosso perfil. Este perfil quem vai definir somos nós em nossa atuação.”


Maurício Godinho – Sete Lagoas

“As críticas feitas ao sindicato aqui hoje foram muito positivas e nos levaram a repensar nosso papel dentro do sindicato, como parte integrante de um todo que somos. Precisamos expor mais o que queremos, debater com nosso pares e divergir quando necessário, com o devido respeito às posições contrárias.  Quando a 'briga' é por um objetivo comum, o  atrito de posições divergentes é salutar, pois nos afasta do comodismo. Fica o desafio de trazer cada vez mais os colegas para o sindicato, independentemente do  posicionamento deles.”


Antônio Lima Mesquita - Belo Horizonte

“O sindicato deveria focar novamente seus objetivos e metas em torno de uma  questão social, do Estado e da política de maneira global. Poderia ser uma instituição que não ficasse restrita às questões corporativas de classe e trabalhistas, mas estivesse empenhado em defesa de interesses políticos e sociais.”


Robson José do Couto

“Assumi um sindicato ainda incipiente e como era estadual, fizemos um trabalho intenso no interior. Com isso, nos quatro anos de mandato como presidente conseguimos passar de 200 para mais de 800 filiados. Atualmente percebo que está muito difícil trazer as pessoas para participar das atividades e se mobilizar.”

O Auditor-Fiscal Teodorico Jadir Cordeiro presidiu a Tribuna Livre na Oficina Sindical com o auxílio do Auditor da DS Brasília, Helder Gondim.

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