Auditores-Fiscais aposentados debatem impactos da Inteligência Artificial em encontro da DS BH

Cerca de 50 participantes acompanharam palestras sobre os fundamentos da tecnologia, as transformações no mundo do trabalho e os desafios para a proteção social

A Inteligência Artificial (IA) foi tema de um encontro realizado na última segunda-feira, 28 de setembro, na sede da Receita Federal em Belo Horizonte. Promovida pela Delegacia Sindical de Belo Horizonte (DSBH), em parceria com a Ensina (Escola Nacional Superior do Sindifisco Nacional), a atividade reuniu cerca de 50 Auditores-Fiscais aposentados para uma tarde de palestras, reflexões e troca de experiências sobre uma tecnologia que já transforma diferentes áreas da vida em sociedade.

Ao longo da programação, os participantes tiveram contato com conceitos básicos de Inteligência Artificial, exemplos de aplicações no cotidiano, reflexões sobre as mudanças no mundo do trabalho e discussões sobre os impactos dessas transformações na proteção social.

O diretor de Assuntos Jurídicos da DS BH, Luiz Sérgio Fonseca Soares, conduziu os trabalhos, representando o presidente da Delegacia, Alfredo Menezes, que não pôde comparecer. Na abertura, Luiz Sérgio agradeceu a presença dos participantes e apresentou os palestrantes, ressaltando a capacidade técnica e a simpatia de cada um.

IA em linguagem simples

A programação teve início com o delegado da Receita Federal em Belo Horizonte, Rodrigo Brito Mendonça, que apresentou a palestra “Inteligência Artificial para todos: entendendo a revolução que já começou”.

Em uma abordagem acessível, Rodrigo partiu de questões básicas — o que é Inteligência Artificial, como ela funciona e por que a tecnologia ganhou tanta relevância nos últimos anos — para mostrar que a IA já está presente em situações corriqueiras. Reconhecimento de voz em celulares, aplicativos de navegação, recomendações de músicas e vídeos e assistentes virtuais são alguns exemplos de ferramentas que fazem parte da rotina de milhões de pessoas.

A proposta foi aproximar os participantes do tema e demonstrar que compreender a tecnologia é também uma forma de utilizá-la com mais segurança. Ao apresentar possibilidades e limitações da IA, o palestrante chamou a atenção para a necessidade de conferir informações e manter o senso crítico, especialmente diante do avanço de golpes e conteúdos falsos produzidos com o auxílio dessas ferramentas.

Ao final, o Auditor surpreendeu o público ao utilizar a própria Inteligência Artificial para criar, em poucos instantes, uma música cuja letra destacava o trabalho do Auditor-Fiscal e celebrava a vida após a aposentadoria.

Do tempo de Agostinho ao trabalho por aplicativos

Na sequência, a diretora de Defesa da Justiça Fiscal e Seguridade Social da DS BH, Maria Áurea do Nascimento, apresentou a palestra “De Agostinho de Hipona a Bill Gates”, propondo uma reflexão sobre as profundas transformações na relação da sociedade com o tempo e com o trabalho ao longo de aproximadamente 1.600 anos.

A exposição partiu de Santo Agostinho, que, nas Confissões, relaciona o tempo à experiência humana, marcada pela memória, pela atenção e pela expectativa. A partir daí, Maria Áurea mostrou como o avanço tecnológico modificou essa relação: do tempo da espera, representado pela comunicação por cartas, passou-se à instantaneidade proporcionada pela internet e pelos smartphones. Com a Inteligência Artificial, surge uma nova dimensão: a antecipação, com sistemas capazes de produzir, interpretar informações e fazer previsões.

As mudanças também alcançam o mundo do trabalho. Se, por um lado, a tecnologia amplia a produtividade e oferece novas possibilidades de flexibilidade, por outro, pode intensificar a disponibilidade permanente, reduzir a separação entre trabalho e descanso e ampliar formas de controle e gestão por algoritmos.

Na segunda parte da palestra, Maria Áurea abordou a realidade dos trabalhadores de plataformas digitais, como motoristas e entregadores de aplicativos. Segundo dados da PNAD Contínua/IBGE apresentados durante a exposição, esse contingente passou de 1,3 milhão de pessoas, em 2022, para 1,65 milhão, em 2024. Apenas 35,9% contribuem para a Previdência, percentual inferior aos 61,5% registrados entre o conjunto dos ocupados.

A palestrante também chamou a atenção para os limites da chamada autonomia desses trabalhadores. Segundo os dados apresentados, as plataformas definem o valor pago por tarefa para mais de 90% dos motoristas de aplicativo.

Para Maria Áurea, as mudanças no mundo do trabalho colocam novos desafios para o modelo de proteção social, historicamente estruturado a partir do emprego formal. Nesse cenário, destacou a necessidade de discutir formas de ampliar a proteção aos trabalhadores, incluindo contribuição previdenciária, remuneração mínima, limites de jornada, transparência no uso de algoritmos e fortalecimento da representação coletiva.

Ao concluir, a palestrante destacou, a partir de uma reflexão atribuída a Bill Gates, que o futuro do trabalho não será determinado apenas pelos avanços tecnológicos, mas também pelas escolhas que a sociedade fizer diante deles.

Uma tecnologia que já faz parte do cotidiano

Encerrando o ciclo de palestras, o diretor de Comunicação Social do Sindifisco Nacional, Marcelo Lettieri, apresentou “O futuro bateu à sua porta: uma conversa prática, curiosa e reveladora sobre Inteligência Artificial”.

Em uma abordagem descontraída e participativa, Lettieri mostrou aplicações que já fazem parte do cotidiano, como a elaboração de textos, tradução de conteúdos, criação de imagens, respostas a perguntas e síntese de documentos.

Durante a apresentação, demonstrou também a capacidade da IA de produzir gráficos e outros conteúdos em instantes, destacando o ganho de agilidade proporcionado pela tecnologia em atividades que, pelos métodos tradicionais, poderiam demandar meses de trabalho.

O palestrante explicou ainda que a expansão da Inteligência Artificial está diretamente relacionada à demanda por energia elétrica e ressaltou que, embora as ferramentas possam facilitar tarefas, organizar informações e apoiar diferentes atividades, seus resultados não devem ser aceitos sem verificação. A tecnologia também pode cometer erros, ela pode “alucinar” e produzir informações falsas com aparência de conteúdo confiável.

A principal mensagem da apresentação foi a de que a Inteligência Artificial já integra a realidade cotidiana e tende a ocupar espaço cada vez maior. Por isso, segundo a abordagem apresentada, informação, curiosidade e senso crítico são ferramentas importantes para lidar com as transformações provocadas pela tecnologia.

Um debate cada vez mais próximo da categoria

A discussão sobre Inteligência Artificial ganha relevância também para os Auditores-Fiscais diante do avanço do uso de tecnologias para análise de dados e de seu potencial impacto sobre a administração tributária e aduaneira.

Ao mesmo tempo em que amplia possibilidades de processamento de informações e automação de tarefas, a IA traz questões que ultrapassam o campo tecnológico, envolvendo as relações de trabalho, a proteção social, a segurança de dados e os cuidados necessários diante de golpes e informações falsas produzidas com o auxílio dessas ferramentas.

O encontro da DS BH proporcionou, assim, um espaço para que os participantes conhecessem melhor uma tecnologia que já está presente no cotidiano e refletissem sobre seus impactos para a sociedade e para o futuro do trabalho.

A atividade foi encerrada por volta das 18h30, após uma tarde de apresentações, demonstrações práticas e debates que mantiveram a participação e a atenção do público até o final. O evento foi direcionado aos Auditores-Fiscais aposentados e faz parte do projeto da DS BH de constante atualização desses filiados.